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Esse chocolatinho venezuelano traduz o clima da Venê depois do referendo: um cocosette, beijos.
Férias at last!Uma semana na praia aproveitando o inverno venezuelano (de 27 graus). Se estiver com sorte.Feliz Natal pra vocês!Tchau e beyjos.
Estava ontem no conforto da minha sala, terminando de assistir um filme e curtindo minha ressaquinha da festa de Natal do dia anterior. Não tinha intenção nenhuma de me mover de onde estava, até que meu humor começou a mudar, de felizinha pra levemente puta, porque um alarme que conheço bem começou a tocar sem parar.Como eu trabalho em casa, estou aqui a maior parte do tempo. Moramos em uma área que é considerada tranquila. Mas sinceramente faz uma boa era que eu não sabemos mais o que é peace and quiet. O prédio em frente parece estar em obras eternas, o vizinho de baixo está refazendo o banheiro e quebrando as paredes até nos sábados de manhã e sempre tem algum alarme de carro disparando sem motivo nenhum. Fora as buzinas. Mas isso é um problema cultural, eu sei - venezuelano já nasce surdo, porque 90% das mães passam nove meses ouvindo buzinaço de carro na cidade, reggaeton na praia e morando perto de alguma obra. Por isso ninguém parece se incomodar - pelo menos não demonstram.Isso é outra coisa patética nesse país - ninguém reclama de nada, não na cara. Falam mal depois, reclamam pra vizinha, pro colega, pra família, seja lá do que for, mas não no momento em que se sentiram incomodados, nunca. Nossa, me dá pena o quanto o povo daqui é covarde. Se alguém disser "ah, no Brasil é a mesma coisa", tudo bem, brasileiro também é super sangue de barata, mas aqui ainda é pior, porque uma pessoa normal tem que suportar muito mais grosseria e engolir muitos milhões de sapos mais que no Brasil. Porque aqui quase ninguém tem educação de verdade.
Hoje em dia eu adoro quando algum caraquenho quer desculpar a bosta que é sua terra dizendo que pelo menos o povo é amável, warm, simpático... Nem respondo. É a gente mais mal-educada, sem noção e porca que eu já vi. E não gostam de estrangeiros, são super-preconceituosos. Vou ser justa: de estrangeiros do hemisfério norte. O povão daqui não consegue assimilar o fato de que não é culpa dos gringos que a Venezuela seja o cocô que é, e sim do(s) governo(s) que ele ajudou a eleger. Mas claro que é mais fácil culpar os gringos.Voltando à minha sala: a droga do alarme não parava nunca mais. Paul terminou de fazer o que estava fazendo e veio me perguntar se eu queria ir com ele até o centro esportivo aqui da rua assistir uma partida de futebol. Esse lugar tem campos de futebol, golfe e até paintball para quem quiser alugar, e todo fim de semana tem uns times amadores jogando por lá. Eu não tenho lá muito (nenhum) interesse, mas como ele insistiu, decidi que talvez fosse uma boa tomar um ar e escapar do alarme pentelho, porque a tarde estava bem bonita.Chegando no campo, sentamos numa mini-arquibancada que fica ali mesmo na beira da via principal do centro esportivo - assim, havia carros estacionados bem atrás da gente. Nem bem sentei um alarme horrível disparou, ensurdecedor. AAAAAAAAAAARGH. Olhamos em volta e havia um sujeito a uns três metros de distância fuçando em um controle remoto. Era o carro dele. O alarme parou. Meio minuto depois, disparou de novo e continuou assim por um tempo - parando e disparando e o cara fuçando no controle remoto, sem nem olhar quem estava do lado. O Típico Ogro Venezuelano. Incomodando todo mundo em volta com seu alarme insuportável e sem dizer uma palavra.Eu estava lívida. Furiosa com aquele comportamento. Ninguém vai falar nada? Não, são todos surdos de nascença, como já expliquei. Estão acostumados a serem tratados que nem gado também. Vou dar um bafo. Tô CHEIA!Virei pro ogro e perguntei: viu, será que você não pode dar um jeito nesse alarme? Está incomodando todo mundo! (o que era bem óbvio, já que a cena estava rolando há uns dez minutos).O ogro gritou: Eu não sou técnico! Quer que eu faça o quê?Eu: É seu carro, então estacione longe das pessoas pelo menos.Ogro: Se está incomodada é muito fácil, pode sair.Eu: (perdi a partícula microscópica de paciência que ainda tinha) Não me interessa se você é técnico! Não sou obrigada a ficar ouvindo essa merda de alarme!Ogro: me xingou de alguma coisa péssima.Eu: Quer saber, é por isso que esse país é essa merda. Por causa de gente que nem você, que é uma merda e vive na merda e gosta dela! (BAIXO NÍVEL TOTAL, eu sei.)Ogro: mais xingamentos.Paul, que estava do meu lado ainda quieto, resolveu se meter e abriu a boca. Aí que eu me dei conta, isso pode ser um problema. Porque até então eu estava xingando o cara de tudo e liberando minha raiva e bem, mas foi só um homem dizer alguma coisa que o ogro se levantou e veio na nossa direção.Antes que alguém fale alguma coisa, eu sei que estava errada provocando briga com o namorado do lado. Porque, *regra geral*, é isso que esses idiotas querem, que o homem intervenha e tudo termine numa confusão master. É uma prática comum por aqui os homens serem agressivos e/ou desrespeitosos com mulheres que nunca viram na vida, só pra conseguir uma reação do namorado/noivo/marido. Imagina então nesta situação, com uma mulher-que-nunca-viu-na-vida mandando o cara à merda.Ogro: Eu bato em homem e mulher, sim! Está pensando o quê? Porque eu sou MACHO!Eu: Machíssimo, batendo em mulher... Isso lá é macho, MARICÓN?Uia, agora já era, pensei. Ele estava roxo de raiva. Paul havia pedido que ele simplesmente parasse o carro em outro lugar e a gente terminasse com isso, mas era tudo que o ogro queria, arrumar um pretexto pra enfiar a mão nele e chamar seus amiguinhos pra ajudar. Por isso resolvi me limitar a gritar "não chegue perto de mim!", virar a cara e encerrar a discussão, e assim evitar que ele chegasse perto do Paul.Funcionou. O ogro deu mais uns berros, mas recuou de volta pra onde estava, e tinha esse monte de gente em volta dele, outros homens, mulheres e crianças. A Família Ogro, comendo salgadinhos de isopor e tomando um refrigerante de framboesa horrível que eles adoram aqui, Frescolita. Nunca vi tanta gente feia e mal-vestida na minha vida, e comentei com Paul.Paul: Agora pára, você.Eu: Só estou sendo sincera. Mesmo se eu gostasse deles, iam continuar parecendo uma matilha.Quinze minutos depois, continuávamos sentados exatamente no mesmo lugar, bebericando cervejinhas, e a Família se dispersou (deixando uma montanha de lixo pra trás, claro), uns entrando no carro com o ogro e outros em uma van. Só do carro, a alguns metros, o super-covarde teve coragem de gritar pra gente:- Tchau, gringo filho da puta!Nós: Tchau, gordo de merda + toda sorte de insultos venezuelanos + dedos.Adoro dizer gordo de miiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiierda.Em seguida passou a van com mais um ou dois feiosos também chamando o Paul de gringo hijo de puta. Uau.Agora vem a parte científica desse episódio infeliz. Olha só o complexo que esse povo tem. EU reclamei do alarme, EU briguei com o ogro, EU mandei ele pra todos os lugares piores da Terra e o Paul é chamado de gringo de mierda? Pra mim teve um "feia" e olhe lá. "Boba"? Muito bizarro. Eles ODEIAM gente diferente. E eu estou 100% cheia dessa cultura porca, ignorante, machista, truqueira e viciada em silicone e beisebol.
Pensava que os irlandeses tinham mania de cemitério até conhecer o Recoleta. Não, não saí desesperada pra "ver" a Evita - até entendo o fascínio que as pessoas têm pela vida dela, mas essa mania não me pegou. Fui porque: 1) adoro cemitérios desde criancinha; 2) estávamos tomando café ali mesmo na Recoleta, então might as well see what the fuss is all about. Com ou sem cemitério, aliás, vale a pena ir ao bairro, porque é lindo e aristocrático e muito verde. Aliás mesmo em notórios tempos de turismo econômico em Buenos Aires, este café da manhã foi uma facada, e não das de manteiga.
Arredores do Recoleta
Logo na entrada dá pra ter uma idéia do que o lugar é: uma cidade de mausoléus de todos os tamanhos, onde estão enterradas (ou onde há espaço para) as famílias mais ricas da cidade.

Gente, é o país da morbidez! Mas os mausoléus são mesmo impressionantes, cheios de esculturas e grades e vitrais, alguns impecáveis e outros caindo aos pedaços. O lugar data de 1822 e tem cerca de 70 sepulturas declaradas como monumentos históricos nacionais. Parece mentira, mas quase todos os túmulos mais antigos e malcuidados e os arbustos ao redor estavam cobertos de camadas e camadas de teia de aranha, à la Halloween. Fora os gatos, dezenas de gatos misteriosamente distribuídos em cada rua do cemitério. Um por rua! Imagino se eles fazem isso de propósito, só pra deixar os visitantes perturbados. Ao menos os mais impressionáveis, como eu.
Tudo ia bem até resolvermos espiar dentro dos mausoléus (pelo vidro, ok...). Daí me dei conta de que os caixões estavam logo ali, separados das pessoas somente por uma porta de ferro e vidro. Em vários era possível ver não um ou dois, mas uma pilha de caixões assim, meio caindo, um em cima do outro. A partir daí os sanduíches de miga (provem, são misto-quentes em um pão de forma superlevinho) que estavam no meu estômago começaram a se comportar mal... Ainda não tinha captado essa história de mausoléu. Na minha cabeça simplória funciona assim: morreu, enterrou ou cremou - de um jeito ou de outro os restos são comidos (ui!), ou pelos vermes ou pelo fogo.
Favor não perturbar os mortos. Da Wikipédia : Na Europa os sepultamentos dentro das igrejas eram comuns até o momento da peste negra (peste bubônica) quando as igrejas não comportaram mais tantos corpos, além do risco de contaminação, quando os enterros foram instituídos. No Brasil-colonial e imperial os sepultamentos existiram até o ano 1820, quando foram proibidos, momento que construíram os primeiros cemitérios. Até então somente negros (escravos) e os indigentes eram enterrados. Os homens livres eram sepultados nas igrejas, por isso o tamanho de uma cidade era medido pela quantidade de igrejas que possuía, pois as igrejas faziam o papel dos cemitérios e algumas cidades coloniais, no Brasil, por exemplo, possuíam mais de 360 igrejas. O sepultamento continua a existir em cemitérios modernos que constroem sepulturas ao invés de covas. O corpo não é enterrado e sim encerrado dentro de uma câmara, onde irá decompor-se.Conselho: não pense em nada disto quando visitar o cemitério, porque dá enjôo.
Categoria luxo: nota 10 Depois de me perder e perguntar um pouco, acompanhada de um grupo de israelenses que não falavam espanhol, encontrei o sepulcro da família Duarte, onde está a Evita (por uma pequena contribuição é possível adquirir um mapa na porta do cemitério, mas eu não sei ler mapas, nem os fáceis nem os difíceis). Ele é simplinho comparado com as loucuras de ostentação que você vê pelos seis acres do lugar, mas é bem-cuidado e... tem uma FILA constante de gente querendo colocar flor e fazer sei lá o que mais. A morta mais querida que eu já vi.
O povo traz até bombons. Que ela deve estar magrinha eu imagino, mas...
Aqui, um monte de histórias curiosas sobre os habitantes do Recoleta - tem a do coveiro que passou a vida economizando para ter seu próprio mausoléu, a da mãe que pediu autorização para dormir ao lado do sepulcro da filha, do casal que se detesta pela eternidade. Bom para praticar el portuñol.
A partir de amanhã euquesei vai estar bundando em Buenos Aires.
Aguardem notícias.
Euquesei é informação (atrasada).Em setembro a revista americana Foreign Policy publicou uma lista de top 5 cidades onde se cometem mais homicídios no mundo. Caracas, longe de fazer feio, levou o troféu: 130 homicídios por cada grupo de 100 mil habitantes. Em uma população oficial de 3,2 milhões de pessoas.
(leia ouvindo Crimewave - Crystal Castles vs Health)
Já tinha ouvido falar que Caracas é a cidade mais violenta do mundo em outras ocasiões, mas o que impressiona desta vez é que os números com que a revista trabalhou são bastante conservadores. Os dados oficiais do governo omitem homicídios relacionados ao sistema prisional e outros que não chegam a ser "categorizados". E, claro, não contam as mortes causadas por "resistência à prisão". Conhecendo a fofurice habitual da polícia daqui, não é de se espantar. Eles são assustadores.
Algumas obras do Museu de Belas-Artes de Caracas também são assustadoras.
Sempre escuto histórias absurdas de coisas que eles aprontam na cara do povo, como por exemplo o que um de meus alunos contou: ele saía do trabalho, em um escritório aqui perto, caminhando com mais um colega, quando foi abordado por dois policiais perto da ponte. O motivo? Queriam dinheiro. Depois de limpar as carteiras dos coitados, saíram rindo. Isso às sete da noite, em um bairro de classe média alta. Imagina então o que não é no resto da cidade.
O artigo ainda põe o dedo na cara do presidente e diz que desde que Chávez assumiu o governo, em 1998, a taxa de homicídio oficial aumentou em 67%. Miércoles!
Outras fontes não-oficiais calculam que a taxa real é ainda maior: 160 por 100 mil. Pra vocês terem uma idéia do quanto isso é grave, a Cidade do Cabo (África do Sul) tem uma população de 3,5 milhões e levou o segundo lugar no top 5 com uma taxa de 62 homicídios por 100 mil habitantes. Menos da metade de Caracas.
Centro de Caracas: fui chamada de louca porque fiz uma visita, em plena luz do dia, mas sozinha.
A Foreign Policy não dá, no site, a fonte dos números, mas em uma entrevista à Terra Magazine o sociólogo venezuelano Roberto Briceño León confirma que os dados sim existem e já foram anunciados há alguns meses pelo Observatório Venezuelano da Violência, núcleo da Universidade Central da Venezuela.Saquem só esse trecho da entrevista: Por que o governo foi incapaz de melhorar os índices de criminalidade, apesar de todas as ações que foram tomadas? Porque não existe uma política, não se sabe o que fazer. Não se reconhece que isto é um problema grave. Porque não houve uma descontinuidade notória entre um ministro (de Interior) e outro.A impressão pessoal que eu tenho aqui em relação à qualquer administração pública é exatamente essa: não sei e tenho raiva de quem sabe.
Outra informação interessante: a pobreza, claro, sempre foi culpada pela violência. Na Venezuela, porém, indicadores sociais como renda e consumo melhoraram nos últimos anos; mas os homicídios continuaram aumentando horrivelmente. A explicação, segundo o sociólogo, é de ordem política, ou seja, da perda do pacto social e da perda da legitimidade das instituições, da existência de uma ação de governo que se dedicou a quebrar a legitimidade institucional, a elogiar condutas transgressoras, e isso tem conseqüências na criminalidade cotidiana.
Disse tudo. A tal Revolução Bolivariana aqui é uma desculpinha muito da vagabunda pra usar a Venezuela como um talão de cheques. E o resultado (parcial) é esse aí, crianças.
Fios, sobre os restaurantes indianos em São Paulo que eu mencionei no post passado, minha dear Bu deu os seguintes pareceres, que eu compartilho aqui com vocês:Sobre os restaurantes, o Tandoor é bem típico mas não sei de que região da Índia. Os donos são indianos e a comida é ótchima e mega picante. O Gopala é aqui pertinho e muito bom, mas outro dia comi um escondidinho de jaca (??) e outro dia ainda serviram uma lasanha com quiabo. Indian? O Puri é bar, nem comento a canalhice.O Govinda minha mãe conhece e diz que é ótimo.Reconheço e dou fé. Thanks Bu!